Analfabetismo no Distrito Federal

A Brasília que ignora as letras

Ao menos 128 mil moradores do DF são considerados analfabetos

Adriana Bernardes
Correio Braziliense
Publicado em 16/01
 
Eles correspondem a 5% da população da capital, índice que o novo governo promete zerar em dois anos. Porém, pelo ritmo atual, meta só será alcançada em 2030. O exemplar do 1º livro de leitura lembra a infância e a única tentativa de Ana Santana Sales, 91 anos, se tornar uma mulher letrada. De capa dura, páginas amareladas pelo tempo e com aquele cheiro inconfundível de objeto engavetado, a publicaçãose tornou uma relíquia guardada há 76 anos. Ana jamais conseguiu ler as histórias contadas ali. Os pais também não sabiam ler e escrever. Ela é analfabeta de pai e mãe, como se diz nos rincões desse Brasil.

O mundo das letras não desabrochou na vida da dona de casa por desleixo, mas pela aspereza da vida. “Uma professora me ensinou o ABCD maiúsculo e minúsculo. Me deu esse livro para ler. Eu ia para debaixo de uma árvore, longe de casa, tentar juntar as letras”, lembra orgulhosa. No entanto, a angústia diária do pai em plantar e colher o pouco que a seca do nordeste permitia afligia mais a jovem que os mistérios da escrita. Ela desistiu das letras.

Assim como Ana, pelo menos 128 mil moradores do Distrito Federal vivem à margem da sociedade por causa do analfabetismo. Os dados são de 2009, com base na população de 2007 e foram apurados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Recém-empossado governador, Agnelo Queiroz (PT) se comprometeu a acabar com o analfabetismo na capital da República em dois anos.

Para se ter uma ideia do tamanho do desafio, nos últimos sete anos, 44 mil pessoas foram alfabetizadas. Nesse ritmo de investimento e congelada a realidade atual, a meta do novo governador somente seria alcançada em 2030.

O que os números dificilmente medem são os reflexos da falta de estudo na vida de uma pessoa. Ana, a nordestina de nascimento e brasiliense de coração, conta que a “cegueira” imposta pela falta de estudo tornou sua vida mais difícil. A moradora do Gama não consegue encontrar os endereços nem pegar ônibus sozinha. Ao ser perguntada se nunca teve medo de ser enganada por não saber ler, demonstra ingenuidade. “Pensava que não tinha esse contratempo. Eu confiava em todo mundo (pausa) e ainda confio”, diz com o dedo em riste e olhar perdido como se passasse a limpo o passado.

Quanto à possibilidade de aprender a ler e escrever, Ana diz que já está velha demais. “Agora, a vista não dá mais. Às vezes, pego revista para ver, mas logo começa a escorrer aquela água quente do olho e eu deixo aquilo para lá”, diz, às gargalhadas. Não há rancor ou arrependimento nas palavras de Ana. Há nelas o orgulho de ter tentado e a educação que ela deu aos quatro filhos, todos letrados.

Outra realidade

O governo local pretende vencer a guerra ao analfabetismo capacitando profissionais, ampliando o acesso ao ensino e mobilizando a sociedade civil. Antes porém, precisa descobrir onde estão e quem são os moradores do DF que não conseguem ler e escrever. A partir desse levantamento, começa outro desafio. Adequar a didática à realidade dos futuros alunos de forma que o conteúdo e o jeito de ensinar respeitem as suas experiências de vida e os prenda na sala de aula.

Apesar dos 128 mil analfabetos do DF, há progressos para se orgulhar. Em 2002, os moradores sem estudo representavam 8,61% da população. Em 2009, o percentual caiu para 5,36%, uma redução de 37,7%. O DF obteve a terceira maior redução de analfabetismo entre todas as unidades da federação e bem acima da média nacional de 21,3% (veja arte).

A paraibana Maria Marluce Paulino, 53 anos, moradora da Estrutural, não tem grandes ambições financeiras mas alimenta um grande sonho. “Um dia quero conseguir ler e escrever uma carta”, revela. Por uma dessas ironias da vida, a mulher que não sabe ler tira o sustento da casa com a venda de jornais. “Quem não sabe ler é cego, surdo e mudo. Nem conta em banco eu consigo abrir sozinha”, lamenta.

Esforço concentrado

A nova secretária de Educação do DF, Regina Vinhais, reconhece como ambiciosa a meta do governo em tornar histórias como a de Maria Marluce uma exceção. Segundo ela, exige esforço concentrado de outros órgãos de governo e da sociedade civil organizada. “Campanhas de erradicação do analfabetismo feitas à parte da EJA (Educação de Jovens e Adultos), como os mobrais, se mostraram ineficientes”, pontua. “Alfabetização é mais do que a codificação e decodificação de símbolos.”

Caberá às escolas identificar a demanda por educação. “Feito isso, vamos estruturá-las para que tenham condições de receber essa clientela. Estudar perto da residência vai facilitar muito a vida dessas pessoas”, explica Vinhais. Na visão do governo, a educação de jovens e adultos deve ser oferecida também no diurno. Segundo a secretária, é um erro pensar que todo analfabeto trabalha durante o dia e pode estudar à noite. Uma parcela considerável faz o turno inverso e não tem oportunidade de se sentar no banco da escola com o modelo atual com aulas apenas no período noturno.

CINCO PERGUNTAS PARA
Regina Vinhais, secretária de Educação do Distrito Federal

O EJA é alvo de críticas por conta do conteúdo e didática de ensino incompatíveis com a experiência de vida dos estudantes, um dos motivos de evasão. É possível reformular o programa e torná-lo mais eficiente?
Muitas campanhas usam pessoas para alfabetizar que não são professores, achando que alfabetizar é fácil. Dentro do possível vamos usar somente professores, bolsistas e universitários capacitados. Vamos conscientizar esses profissionais para trabalhar com o método do Paulo Freire. No século passado, ele já dizia que adulto não se alfabetiza como se faz com uma criança.

A meta de vocês é acabar com o analfabetismo em dois anos. Porém, a senhora diz que é preciso envolver escola, comunidade, fazer um censo, capacitar pessoas. Não é muita coisa para se fazer em apenas dois anos?
Muitas vezes as pessoas têm muita vontade de que as coisas aconteçam, mas lhes falta chance de fazer. O professor é um profissional extremamente emotivo e preocupado com questão social. Se a gente oferece as condições para ele participar de um movimento como esse, as coisas caminham. Já conversei com diretores das regionais e eles estão recebendo muito bem essas possibilidades de ações.

Especialistas dizem que não se combate o analfabetismo sem investimentos. O governo terá que construir mais escolas ou ampliar as existentes para abrigar os novos alunos?
Não é preciso construir mais escolas. O DF tem uma escola em cada rincão. Estamos levantando as salas ociosas nas escolas e vamos precisar de mais espaço. Por isso, contamos com o apoio de igrejas e movimentos sociais. Mas, primeiro, é preciso fazer o censo, identificar onde estão essas pessoas e onde as necessidades vão aparecer.

De que forma o governo pretende envolver a comunidade na tarefa de alfabetizar a população?
Uma das propostas é que o empresário libere o funcionário por um ou duas horas para ele estudar na empresa. Esse estudo deve ser dirigido, orientado por um profissional que os ajude a tirar dúvidas. Já conversei com alguns empresários e a receptividade é muito boa.

E quanto às crianças analfabetas, o que será feito?
O número de crianças com mais de 7 e menos de 15 anos fora da escola é mínimo. Uma coisa é certa. Nenhuma escola pode recusar a matrícula a uma criança com menos de 15 anos porque ela é analfabeta. Isso não pode ocorrer de forma alguma, porque crianças com 12 anos, por exemplo, não são trabalhadores e exigem uma atividade regular para elas. É claro que não podem ser colocadas numa turma de 5 ou 6 anos. Mas a escola precisa ter competência e motivação para alfabetizá-la.

Leia também:

Quem mora na zona rural do DF tem mais dificuldade em aprender a ler e escrever por causa da distância da escola e outras barreiras.
 
Fonte: http://www.correioweb.com.br/euestudante/noticias.php?id=16918

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