Um livro...

“O homem nunca se banha duas vezes no mesmo rio” (Heráclito de Éfeso)



     Era mês de fevereiro. Calor abrasador daqueles de rachar o quengo. O ano, se não me falhe a velha memória, era o de 2010. Não repare, amigo (a) leitor (a), pois não é descaso de minha parte, não, mas é que, ultimamente, os atuais elevados níveis de aquecimento global, além de estarem causando uma enxurrada de desastres ecológicos pelos quatro cantos do mundo, pra piorar ainda mais a situação, estão derretendo a cabeça de muita gente por ai, inclusive deste que vos fala.

     Pois bem, sem querer me prolongar, já me prolongando, vou direto ao que me inspirou a escrever estas palavras. Ocorre que eu estava em mais uma das minhas triviais andanças de fim de semana pelas bandas de São Sebastião-DF.

     Era fim de tarde.  Aparentemente, tudo muito bem, tudo muito calmo. Ao descer pela Avenida Principal, os pássaros em revoada anunciavam à sua plateia que o dia em, poucas horas, logo se esconderia. Eu, aproveitando o finalzinho daquele sábado para curtir a minha folga de trabalho, passeava com meu fiel amigo Bongo – um cachorro e tanto, amigo de todas as horas- na altura da histórica e tradicional Praça Tião Areia, quando ouvi uma voz estranha e bastante rouca, a dizer pausadamente: 

__Um leitor, por caridade! Um leitor, por caridade!

     A voz sumiu num relance. Olhei para um lado, olhei para o outro, e nada vi. O Bongo, com aqueles olhos farejadores com os quais a natureza tão bem lhe presenteou, me olhou com uma cara de quem nada havia entendido. Em verdade vos digo que achei um tanto estranho aquilo, e mais estranho foi o fato de não haver uma alma viva sequer ali por perto.

     O que tinha de errado naquele sábado? Onde estavam as pessoas, onde estava a cidade? E aquele barulho infernal do vai e vem de carros, motos, carroças, ônibus, bicicletas, carros de som de praxe? Onde estavam todos? Dormindo é que não estavam, afinal de contas, “todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite”. Será que estariam reunidos no Aquários Bar curtindo o rala-rala, o mexe-mexe, ou quem sabe assistindo a uma pelada no sintético? Estariam apreciando algum sarau dos Radicais ou do Supernova em algum point seleto da cidade? Para o bem da verdade, devo dizer-lhes que não sei.

     Nem os pardaizinhos que de costume cantam ao entardecer e que comem restos e farelos de comida que nossos concidadãos fazem o descomunal favor de jogar no chão, nem desses passarinhos nada pude ouvir. Então resolvemos então continuar o nosso passeio quando, de repente, os gritos, agora bem mais fortes, estremeceram no até então silencioso ambiente da conhecida praça:

__Um leitor por caridade!
__Um leitor por caridade!

      Ouvia-se repetidas vezes...

     Novamente não vi ninguém, e já ia mesmo andando decido a não dar ouvidos àquilo, quando o Bongo latiu alvoroçadamente com alguma coisa. Os mais velhos costumam dizer que o cachorro, além de ser o melhor amigo do homem, é capaz de enxergar a olho nu coisas que quase nunca conseguimos ver. Que coisa, não?

     Qual não foi o meu espanto ao virar-me e ver aquela cena. Aquilo, aliás, para mim não poderia ser mais que uma mera imagem surreal provocada, talvez, pelos efeitos inesperados de umas quatro ou cinco taças de vinho Canção que eu tomara logo bem cedinho para espairecer um pouco e contemplar o céu. Ou quem sabe mesmo, não seria mais uma “paranóia ou mistificação” da minha louca e insana mente? Ou seria mais um dos efeitos do estufa a lastimar a minha cabeça?

     Foi então que dei meia volta, ajustei os óculos rapidamente e aproximei-me, temeroso. Fiquei parado e calado. O Bongo, que não me deixa mentir, não mexeu uma orelha sequer. Ficou ao meu lado, como quem pressente uma tragédia. Por alguns instantes, ficamos, eu e o Bongo, paralisados.

     Aquilo não era música para meus ouvidos nem céu para os meus olhos. Tínhamos, ali, em plena Praça Tião Areia, diante de nós, um livro quase aos pedaços, um pobre diabo aos trastes, de idade já muito avançada e com uma aparência um tanto gasta. Estava mal cuidado e às lágrimas, com folhas amarelas e muito manchadas, talvez pelas lágrimas derramadas em sua jornada até ali. Parecia já não resistir mais ao tempo e ao vento, talvez pela falta de alguém que o amasse de verdade, com todas as forças e total dedicação. E, cara a cara com ele, o velho livro, ouvimos atentamente ao desabafo daquele ente sofrido que verdadeiramente se derramava em palavras diante de nós, e que fixou o olhar no mais profundo dos meus olhos –  era um livro que, com voz sôfrega, porém, enfática, nos dizia assim:

__ “Meus amigos, tempos bons já tive, tempos em que eu era raridade nas bibliotecas particulares de alguns poucos. Bons tempos aqueles em que eu gozava de elevado prestígio e real valor por trazer em mim conhecimentos para a vida inteira. Caro era para alguém ter-me à mesa. Os tempos mudaram, a vida é outra, a cultura globalizou-se e chegou aos quatro cantos do mundo, num segundo de século. Hoje, com a evolução humana ambicionando o céu e a terra em todos os seus domínios, já não tenho o menor espaço e valor nesta sociedade. Se eu peço alguns míseros minutos de dedicação e atenção à minha pessoa, é como se eu disparasse um tiro no pé de alguém ou o obrigasse ao trabalho escravo pela eternidade.

     Às vezes, conversando com meus botões, eu me pego sozinho, perguntando: ‘terá mesmo valido a pena a humanidade ter passado, da Pré-História até os dias atuais, por todo esse processo de difusão cultural, de progresso científico, de evolução? Por que não tenho o menor significado e muito menos valor nos hábitos cotidianos de vocês? Acho que quanto mais se tem liberdade de acesso aos bens culturais, menos vocês usufruem desta dita liberdade’.

    Sinceramente, ainda tenho cá minhas dúvidas. E prova disso é que estou aqui carcomido sobre este banco de praça, jogado às traças, nessas condições. Como bem podem ver, um traste moribundo sem um lar, sem uma face para me contemplar e desvendar os meus encantos e segredos”.

    Bongo e eu, atentos e subitamente embevecidos com aquelas palavras, continuamos a ouvir o veemente discurso daquele livro. De fato, não era um livro qualquer. Ele prosseguiu, agora mais incisivo.

__ “Tal como se faz com alguns de vocês assim que envelhecem, comigo não é diferente: tiram-me de circulação, me põe em uma caixa qualquer para viver na companhia inóspita de aranhas, baratas ou ratos, lacrado – não que eu tenha nada contra esses bichos. Isso sem falar nos anos que passo empoeirado sob uma estante, apenas ocupando espaço ou somente para dar a ligeira impressão de um ar cult e intelectual a quem vislumbra a estante de alguém.

     O que me irrita profundamente é quando sou dado de presente e certas figuras perguntam para si mesmo: “Um livro de presente? Ah, mas o que vou fazer com ele depois que eu terminar de ler? ”Quanta mediocridade e falta de perspectiva, ora bolas! É o que eu chamaria de uma pura diarréia mental. Que eu saiba, conhecimento não vale apenas para o agora ou para o amanhã, mas para a vida inteira. Eu precisava dizer isso, você não imagina o peso que tiro das minhas costas, ou melhor, da minha capa.”

     Fiquei estarrecido ao ouvir aquele discurso proferido em plena praça. E mais ainda quando ele me perguntou:

_Posso lhe pedir um grande favor, meu amigo?
_ Pois faça, respondi-lhe, já bem comovido.

_Só peço que me adote pelo tempo que achar necessário: se por alguns minutos ou horas, por um dia, uma noite, uma semana, não importa quanto tempo. Mas peço-lhe, pelo bem da sagrada comunicabilidade humana, que me leves contigo. Não exijo cem por cento de atenção nem que me ponhas no alto de tua estante. Apenas um dedo de prosa diária entre a gente, e eu já me dou por satisfeito. Em contrapartida, não lhe posso prometer muito. Mas posso garantir que lhe servirei como fonte de sabedoria, de autoconhecimento e de apuração da sua maneira de ver e sentir a realidade. Muitas viagens empreenderemos juntos, se assim o desejar. Prometo solenemente aqui e agora do alto do banco desta praça que, a cada vez que mergulhares a tua alma no mais profundo âmago do meu rio (de palavras), jamais serás o mesmo.

     Sem saber o que dizer, não sei explicar em palavras que força me moveu até ele. Aproximei-me mais do banco de cima do qual aquele livro falara tão apaixonadamente, em questão de minutos, para mim e o Bongo. Sentei-me junto ao velho sábio, o peguei com jeito para não danificá-lo mais do que já estava e calmamente comecei a folhear suas páginas.

     Sua capa estava quase ilegível, mas na folha subsequente havia o seguinte título impresso em letras garrafais: “LEIA-ME E PASSE-ME ADIANTE, POIS SOU COMO UM RIO CAUDALOSO SEM COMEÇO E SEM FIM". Mais abaixo dizia: “Conhecimento guardado para si, é conhecimento sem valor nenhum”. Repeti essa citação pelo menos umas três vezes para o Bongo, que me olhou de um jeito estranho como se o recado servisse mais para ele que para mim.

     E mal pude chegar em casa para começar a ler o meu mais novo amigo de longas horas e bons momentos. Adianto-lhes que já estou quase na metade desta fantástica jornada literária.

    A cada página, uma surpresa. A cada surpresa, uma descoberta surpreendente, uma viagem... Afinal, do que se trata mesmo o livro em questão? Ah, mas isso é assunto para um segundo texto, todavia garanto-lhes que não se arrependerão de ler. Como pista e para aguçar um pouco a imaginação literária de cada um, aqui deixo apenas o título que acabei de descobrir: “Palavras de um livro”. Essa é a história. Estou passando a bola para vocês, ou melhor, o livro. Agora é com vocês! 

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